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Tratamento especializado muda a realidade de crianças e adolescentes com epilepsia

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Nem toda epilepsia começa com uma convulsão. Em muitas crianças, a doença se manifesta de forma discreta e quase imperceptível, o que pode retardar o diagnóstico por anos. Pausas repentinas no comportamento, movimentos involuntários ou episódios breves de desatenção estão entre os sinais que frequentemente passam despercebidos por famílias e até por ambientes escolares.

A epilepsia é uma condição neurológica caracterizada por descargas elétricas anormais no cérebro, capazes de interferir diretamente no desenvolvimento infantil e na rotina familiar. Para ampliar a visibilidade sobre o tema e enfrentar o estigma que ainda cerca a doença, a segunda segunda-feira de fevereiro foi instituída como o Dia Internacional da Epilepsia.

Segundo a neurologista Maria Olívia Fernandes, do Hospital da Criança de Brasília José Alencar, a compreensão social sobre a epilepsia ainda é limitada. “Existe uma ideia muito restrita do que é a epilepsia. Não se trata apenas de convulsões visíveis, mas de uma condição neurológica que interfere em vários aspectos da vida da criança e da família”, explica.

A unidade acompanha crianças e adolescentes desde a fase de investigação diagnóstica até tratamentos de maior complexidade. A primeira linha de cuidado costuma envolver medicamentos, mas nem sempre essa abordagem é suficiente para controlar as crises.

De acordo com a neurologista Renata Brasileiro, parte dos pacientes apresenta resistência ao tratamento medicamentoso. “Há situações em que, mesmo com o uso correto das medicações, as crises continuam acontecendo. Nesses casos, é fundamental que o paciente seja avaliado em um serviço especializado”, afirma.

Quando a epilepsia é classificada como farmacorresistente, outras estratégias passam a ser consideradas, como a dieta cetogênica,  que altera o metabolismo cerebral  e a possibilidade de intervenção cirúrgica. A definição do tratamento depende do tipo de epilepsia, da área do cérebro envolvida e do impacto das crises na vida da criança.

A demora no diagnóstico é uma realidade para muitas famílias. João Pedro Gonçalves, hoje com 12 anos, teve os primeiros sinais ainda na infância, mas só chegou a um acompanhamento especializado anos depois, após sofrer um traumatismo craniano grave. “Foi depois desse episódio que conseguimos entender o que realmente estava acontecendo e iniciar o tratamento adequado”, relata a mãe, Julle Gonçalves.

Com o acompanhamento contínuo, a rotina familiar mudou. As crises diminuíram e João Pedro passou a ter mais autonomia no dia a dia. “Hoje ele sabe lidar melhor com a doença, segue os horários dos medicamentos e consegue manter uma rotina mais estável”, conta.

Na infância, as manifestações da epilepsia nem sempre são evidentes. Maria Olívia Fernandes alerta que as crises mais comuns nessa fase podem ser sutis. “Muitas vezes não há convulsão generalizada. O que aparece são interrupções bruscas do comportamento, movimentos repetitivos ou rigidez em partes específicas do corpo”, explica.

Para a especialista, a observação atenta é decisiva.“Quando esses episódios se repetem ou fogem do comportamento habitual da criança, é importante procurar avaliação médica”, orienta.

O diagnóstico é feito a partir da análise clínica e de exames como o eletroencefalograma, que avalia a atividade elétrica cerebral, e a ressonância magnética. Para os profissionais de saúde, identificar a epilepsia precocemente é essencial para reduzir crises, preservar o desenvolvimento infantil e garantir mais qualidade de vida, além de quebrar mitos que ainda atrasam o cuidado adequado.

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