Em jantar com líderes da base aliada na Câmara dos Deputados nesta quarta-feira (23), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não apenas reafirmou seu compromisso com o atual mandato, mas também deixou clara sua intenção de disputar a reeleição em 2026. A declaração, feita de forma enfática, marca uma guinada no discurso que até então vinha mantendo margem para dúvidas quanto à candidatura.
“Estou candidatíssimo”, disse Lula, segundo relatos de participantes do encontro, que durou mais de duas horas e foi promovido pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). A reunião, nos moldes de um jantar recente organizado por Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) com senadores, teve como pano de fundo a tentativa de reconstrução da ponte entre o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional — relação que, nos bastidores, tem sido marcada por ruídos, disputas de protagonismo e desentendimentos sobre nomeações.
Críticas à baixa interlocução com parlamentares, especialmente nos primeiros meses do atual mandato, levaram o presidente a reconhecer que o seu governo depende mais do Congresso do que o contrário. A fala não é apenas simbólica: revela uma tentativa de Lula de ajustar o curso político e reduzir o desgaste acumulado após uma série de tropeços na articulação com o Legislativo.
A recusa do deputado Pedro Lucas (União Brasil-MA) ao Ministério das Comunicações, após ter seu nome previamente anunciado, foi um desses episódios constrangedores para o Planalto. Ele, no entanto, participou do jantar, indicando que o canal de diálogo não foi rompido. Em paralelo, horas antes da reunião, Lula havia se encontrado com o próprio Pedro Lucas e com Alcolumbre para selar a nomeação de Frederico de Siqueira Filho para o comando da pasta — um movimento que buscou mostrar força e resolver a crise interna.
Durante o jantar, Lula fez um discurso longo, de mais de 30 minutos, no qual revisitou suas conquistas de governo, destacou avanços sociais e reafirmou que está com a saúde em dia, contrapondo rumores de que a idade ou a saúde poderiam ser obstáculos para um novo mandato.
A reunião teve também caráter simbólico: foi vista por muitos como o “recomeço de gestão”. “Esse encontro tem clima de virada”, comentou um dos deputados presentes, conhecido por sua postura crítica ao governo. O presidente ouviu cada um dos 16 parlamentares presentes, de diferentes partidos da base — do PSOL ao PP — e garantiu que novos encontros virão, incluindo uma reunião mais informal com churrasco e futebol na Granja do Torto.
Hugo Motta, anfitrião da noite, defendeu a autonomia do Legislativo para modificar projetos do Executivo e destacou a necessidade de harmonia entre os Poderes. Apesar da cobrança velada por mais respeito institucional, também fez elogios ao presidente e à disposição em ouvir os deputados.
O tom da noite foi de conciliação. Lula sabe que, sem uma base sólida e articulada, sua governabilidade fica fragilizada. Mais do que lançar sua candidatura informalmente, o presidente deu um passo estratégico: reconheceu que a construção política começa no diálogo.


