A cinco dias da eleição no Distrito Federal, quem tenta acompanhar os passos de Leandro Grass (PT) tem a incômoda sensação de estar diante de uma miragem. A campanha petista ao Palácio do Buriti entrou na reta final ostentando o diagnóstico mais devastador do xadrez político local: uma candidatura de empréstimo, que caminha a sombras da imagem do Palácio do Planalto.
Na política, assim como na gastronomia, existe um erro fatal: a falta de tempero. Uma candidatura insossa pode até reunir os melhores ingredientes no papel — tempo de TV, a máquina partidária e o apadrinhamento do presidente —, mas falha no essencial: não desperta o apetite do eleitor, não marca o debate público e não mobiliza as ruas.
Na tentativa de agradar e diluir seus discursos em fórmulas genéricas, a campanha de Grass virou um caldo ralo. Sem o “sal” do carisma e da conexão visceral com a cidade, o resultado não é a rejeição raivosa, mas algo ainda pior na política: a indiferença do eleitor.
Papel de figurante nos próprios atos
Basta passar os olhos pelo histórico da campanha de Grass no mês de setembro para entender a dimensão desse esvaziamento. No “adesivaço” do último dia 15, quem roubou a cena no Plano Piloto foi a primeira-dama Janja, que colou adesivos de Lula nos carros e entoou, a plenos pulmões, o jingle do marido. Grass estava lá, sorridente nas fotos, cumprindo o melancólico papel de figurante de luxo.
A cena se repetiu no comício em Ceilândia, batizado ironicamente com o slogan da campanha nacional — “Brasil Pronto pra Mais no DF” — e na recente carreata em Águas Claras, articulada inteiramente em torno do nome do presidente da República.
A cada ato público, o enredo é rigorosamente o mesmo: a militância canta Lula, vende Lula e abraça Lula, enquanto o pretenso candidato a governador surge apenas como uma figura de acompanhamento, um adereço de palanque na disputa que deveria ser sua.
Cabo eleitoral de um projeto que não empolga
O drama ganha contornos ainda mais nítidos quando se observa o esforço pessoal do próprio presidente. No palanque de Ceilândia, Lula fez questão de ir ao microfone, prometeu se empenhar pessoalmente para alavancar a chapa e chegou a classificar Grass como uma “figura extraordinária da política”. O afago presencial foi o ápice da tentativa de ressuscitar a candidatura.
Contudo, nem a bênção direta do maior quadro da história do PT foi capaz de mover o ponteiro. A promessa de dedicação pessoal do presidente serviu apenas para expor o óbvio: sem a maquiagem nacional, sem o jingle do Planalto e sem a presença da primeira-dama, a candidatura de Leandro Grass revela-se um embrulho vazio. É a prova de que o apoio do Planalto tinha tudo para ser o carro cfefe da campanha, mas não salva uma candidatura em descrédito até com a militância.
Encolhimento anunciado
Apostar em um nome que não dialoga com a militância e que não empolga a cidade resultou no pior dos mundos. A militância cumpre tabela por obrigação estatutária, mas sem a paixão que historicamente moveu a esquerda na capital.
Leandro Grass chega a reta final da campanha com o carimbo de em um projeto “sem sal”, e o PT do Distrito Federal, mais uma vez, assiste do palanque ao resultado amargo de um encolhimento anunciado.



