Acabaram as panelas no Palmeiras. A família Scolari está de volta

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São Paulo, Brasil

Foram quatro treinamentos.

Três reuniões.

Uma quando foi apresentado.

Outra na segunda-feira, depois do empate contra o América Mineiro, com vários reservas.

A última, na quarta-feira, à noite, no Paraguai.

E na partida de ontem contra o Cerro Porteño, a família Scolari deixava de ser embrionária.

Passava a ser efetiva.

A simplicidade tática que trouxe segurança à carreira de 32 anos como treinador. E que teve como exceção uma insana tarde no Mineirão, quando se deixou levar pela empolgação e fez o Brasil passar pelo maior vexame da sua história.

Os 7 a 1 estão tatuados na testa.

Ele não esquece.

Depois da Copa de 2014, nunca mais abriu mão dos três volantes, dois meias com fôlego para a recomposição, para atacar e marcar. E na frente, um homem isolado, servindo de referência para os contragolpes.

Nada de sair tocando bola desde o tiro de meta, uma ‘frescura’ arriscada. Com ele, estão liberados os chutões, a ‘ligação direta’, com a bola passando por cima da cabeça dos meio campistas, buscanto o meia atacante veloz, ou o atacante para servir como pivô a quem chega de trás.

Laterais precisam atacar. Mas só quando o volante do seu lado estiver na cobertura. Das triangulações com os meias saem seus amados cruzamento. 

E algo letal dos times de Felipão: a bola aérea. A movimentação estudada na área. Um jogador baixo na frente do goleiro adversário, para atrapalhar sua saída. Um zagueiro na primeira trave, fazendo o corta luz. Outro no meio, atraindo a marcação. O atacante na segunda trave. Volantes vindo na corrida pelo meio. E um meia ou atacante baixinho na entrada da área, para o rebote.

É só a bola subir e o sufoco para o adversário é garantido.

Como foi no primeiro gol contra o Cerro.

Nas reuniões de Felipão, a necessidade de encarar os adversários como inimigos. Sem violência, mas com personalidade. É para encarar o adversário depois de uma dividida, uma discussão, quando o companheiro for atingindo, sofrer uma falta mais dura.

Todos que estão de camisa verde são irmãos.

O ‘pão de cada dia’ depende do companheiro.

Felipão se coloca no mesmo papel do caríssimo elenco palmeirense, que acaba de derrubar Roger Machado. Chegou ao Palestra Itália tão desacreditado quanto. À beira dos 70 anos, teve de apelar para Nelson Mandela, que assumiu a presidência da África do Sul aos 76 anos, para provar que não está velho. Melhor referência, para quem já defendeu o ditador chileno Augusto Pinochet.

Além do seu discurso quase militar há uma velha preocupação, algo que sempre exigiu das 16 equipes e das três seleções que comandou: o preparo. Formado em Educação Física, Felipão sempre teve obsessão pelos atletas estarem no auge atlético. Só assim seu simples esquema tático pode dar certo.

O preenchimento de espaço, a recomposição, os contragolpes em bloco são ações naturais de quem consegue correr mais do que 90 minutos, de quem tem grande explosão muscular, as bolas aéreas são certeiras para aqueles com maior impulsão, força nos adutores, nas panturilhas. 

Felipão simplica as coisas. As linhas de marcação não são distintas, próximas como o futebol moderno exige. Não há inversão, troca de passes com paciência no meio de campo para achar as brechas na zaga adversária. Seus meias ainda dependem de ganharem divididas na intermediária para encontrarem atacantes livres. 

Suas equipes têm dificuldade em criar. 

Precisam ser atacadas para terem espaço, liberdade. Como aconteceu ontem em Assunção. O primeiro tempo foi muito fraco. Só depois do primeiro gol, de bola parada, que a vida mudou ao Palmeiras.

“Queria dizer que não existe diferença do Palmeiras para o Cerro. O Palmeiras foi o primeiro do ranking, e o Cerro o quarto. São equipes muito equilibradas. O que muda é o jeito de jogar. O 2 a 0 é um bom resultado, mas temos que ter os pés no chão e saber que o Cerro pode reverter, sim”, destacou Scolari, na sua coletiva.

Ele não gosta de ser direto. 

O que ele quis dizer com ‘pés no chão’ não foi um pedido apenas de humildade a seus jogadores. Foi um recado à diretoria. O quase septuagenário Felipão sabe que é impossível na prática vencer a Libertadores, a Copa do Brasil e o Brasileiro. Por isso, vai poupar atletas contra o Vasco, domingo. Não se deixará levar pelo reencontro com a torcida.

O técnico quer é o time inteiro onde o caminho é mais curto para o título. Na Copa do Brasil, quinta diante do Bahia. E ir preparando a equipe para o dia 30, contra o Cerro, para assegurar o time nas quartas. Com a possibilidade de ter o Corinthians pela frente, se o clube reverter a derrota diante do Colo Colo.

Felipão tem carta branca para poupar quem quiser.

Sem correr o risco de 2012. Enquanto os titulares se encaminhavam para conquistar a Copa do Brasil, os reservas, fraquíssimos, garantiam o rebaixamento à Segunda Divisão.

Agora o elenco é muito mais forte. É repleto de ‘camarões’ como gosta de simplificar Scolari.

 Outro fator determinante. Os jogadores já perceberam o respeito que ele tem dos dirigentes. E sua postura de comandante do grupo. Não trata ninguém de igual para igual. É superior hierarquicamente. Bem diferente de Roger Machado, Eduardo Baptista e Cuca.

Por isso, Felipe Melo já até pediu desculpas ao treinador e ao grupo. Ele se deixou levar pelo gênio e aceitou a provocação de torcedores paraguaios que, segundo ele, imitavam macacos. O volante, de histórico disciplinar complicado, apontou a genitália para a torcida. E tem enormes chances de ser suspenso. Uma bobagem juvenil do jogador de 35 anos.

Mas o treinador não irá crucificá-lo. Pelo contrário, como o ‘pai’ da família Scolari, o cobrará internamente. Para o mundo exterior, ficará ao lado dele e de todos os seus jogadores.

O milionário Palmeiras precisava, queria esse paternalismo militarizado de Felipão. Montar uma equipe simples, mas competitiva, vibrante, ‘com sangue nos olhos’, como gostam de repetir os jogadores. 

Acabou a apatia.

Terminaram as panelas.

Os estrangeiros de um lado, as estrelas de outro e os humildes de lado.

Entenderam que dependem uns dos outros.

Os gols de Borja ontem foram comemorados com uma euforia como há muito não se via. Os reservas o abraçavam como se fosse um irmão e não apenas um colega de profissão.

Será assim no Palmeiras, daqui para a frente.

E a equipe está sendo moldada.

Sem brilho tático, estratégica.

Nada inovadora.

Mas eficiente, copeira.

É o que a torcida palmeirense conhece.

E desejava.

A ‘família Scolari’ está de volta…

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